
O urbanista do Vivapark
Antes de o Vivapark existir, existiu Curitiba. Foi lá que um arquiteto de 33 anos, prefeito nomeado numa cidade de 600 mil habitantes, decidiu que ônibus podia andar como metrô, que rua podia ser de gente e que parque era a melhor obra contra enchente. Cinquenta anos depois, com o mundo copiando as ideias dele, Jaime Lerner desenhou o seu último bairro na beira da BR-101, em Porto Belo. Esta página conta quem ele foi, o que fez, e por que o Vivapark é a versão mais completa do que ele passou a vida tentando explicar.

“A cidade não é o problema. A cidade é a solução.”Jaime Lerner, em palestras e entrevistas ao longo de décadas (Cimento Itambé, ND Mais). Foto: Victor Soares/ABr, CC BY 3.0 BR, Wikimedia Commons.
Jaime Lerner nasceu em Curitiba em 17 de dezembro de 1937, filho de imigrantes judeus poloneses de Łódź. Formou-se arquiteto pela Universidade Federal do Paraná em 1964 e, no ano seguinte, ajudou a criar o IPPUC, o instituto de planejamento que fez o plano diretor da cidade. Em 1971, aos 33 anos, foi nomeado prefeito. Curitiba tinha 600 mil habitantes, ruas afogadas em carro e rios que transbordavam todo verão.
Ele governou a cidade três vezes e o estado duas, mas o que o mundo lembra não são os cargos: são as ideias. O ônibus em canaleta que custa vinte vezes menos que um metrô. O calçadão feito num fim de semana. Os parques que seguram enchente. O lixo trocado por comida. Em 2010 a revista Time o colocou entre os pensadores mais influentes do mundo; em 2018, a Planetizen o apontou como o segundo urbanista mais influente de todos os tempos. Presidiu a União Internacional de Arquitetos entre 2002 e 2005 e recebeu, entre outros, o prêmio de meio ambiente da ONU (1990), o Príncipe Claus (2000) e o Leadership in Transport da OCDE (2011).
Morreu em Curitiba em 27 de maio de 2021, aos 83 anos, de doença renal. A Câmara da cidade decretou três dias de luto. Naquele momento, em Porto Belo, a primeira fase do Vivapark estava em obras.
“Se você quer criatividade, corte um zero do seu orçamento. Se quer sustentabilidade, corte dois.”
Jaime Lerner, TED 2007, “A song of the city”. Foi assim que Curitiba fez o BRT sem comprar um ônibus: a cidade desenhou as linhas e as empresas privadas puseram a frota.
O primeiro calçadão do Brasil foi feito num fim de semana, em 72 horas, para os comerciantes não terem tempo de impedir. Quando um grupo tentou voltar com os carros, Lerner encheu a rua de crianças pintando papel no chão. Vinte anos depois, a Rua 24 Horas, uma galeria coberta que não fecha. Foto: a Rua 24 Horas.
Foto: SamirNosteb, CC BY-SA 3.0, Wikimedia Commons.
Canaletas exclusivas para ônibus articulados, estações-tubo com pagamento antes de embarcar e embarque no nível. Custou uma fração de um metrô e hoje move mais de 2 milhões de passageiros por dia. Mais de 200 cidades copiaram, de Bogotá a Seul. É a origem da palavra BRT.
Foto: Mariordo (Mario Roberto Durán Ortiz), CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons.
Em vez de diques, parques. A prefeitura comprou as várzeas dos rios e transformou em lagos que seguram a chuva. O Barigui tem 1,4 milhão de m². A área verde por habitante foi de 0,5 m² em 1970 para mais de 50 m², três vezes o que a ONU recomenda.
Foto: Fer14041978, CC BY-SA 3.0, Wikimedia Commons.
Uma antiga ocupação irregular virou o cartão-postal da cidade: a estufa de ferro e vidro no eixo de um jardim francês. Hoje é o lugar mais fotografado de Curitiba.
Foto: Rodrigo Argenton, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons.
Um teatro de tubos de aço e policarbonato construído dentro de uma pedreira desativada, sobre um lago, com 1.600 lugares. Ao lado, na mesma pedreira, a Universidade Livre do Meio Ambiente, inaugurada com Jacques Cousteau.
Foto: herval, CC BY 2.0, Wikimedia Commons.
Outra pedreira abandonada que virou parque, com túnel, cascata e um mirante para as araucárias. A regra de Lerner: o que a cidade jogou fora vira o melhor lugar da cidade.
Foto: Marinelson Almeida, CC BY 2.0, Wikimedia Commons.Há mais: o programa Lixo que não é Lixo (1989), que trocava lixo separado por comida e chegou a 70% das casas separando; os Faróis do Saber, bibliotecas de bairro com torre e luz; o Bosque do Papa; o Memorial de Curitiba; a Universidade Livre do Meio Ambiente. A lógica era sempre a mesma, e ele a resumia numa frase: “onde passava ônibus subia prédio; onde não passava, virava parque”.
Lerner explicava a cidade com um bicho. No casco da tartaruga estão, juntos, o lugar de morar, o lugar de trabalhar e o lugar de viver. Ela carrega tudo consigo e por isso não precisa correr. Se você corta o casco em três pedaços, a tartaruga morre. A cidade que separa moradia, trabalho e lazer em zonas distantes faz isso com as pessoas: obriga todo mundo a viver dentro do carro, indo de um pedaço do casco ao outro.
“O casco representa as várias funções urbanas: o lugar de trabalho, o lugar de moradia, o lugar do lazer. A tartaruga é o melhor exemplo de vida e trabalho juntos.”
Jaime Lerner, no livro O vizinho: parente por parte de rua (2005), citado pelo Caos Planejado.Daí a regra dos 15 minutos: tudo o que é essencial, a pé. Daí o parque no meio, e não na borda. Daí a mistura de casa, prédio baixo, escola e comércio na mesma quadra. Ele chamava isso de acupuntura urbana quando era uma agulha só, uma intervenção rápida que muda um bairro; e chamava de bairro-parque quando era o desenho inteiro.
Em 2020, quando a Vokkan começou a terraplenagem de 990 mil m² entre o mar e a BR-101, o masterplan já tinha assinatura: Jaime Lerner Arquitetos Associados. A arquiteta Debora Ciociola, do escritório, disse à HAUS em 2022 que “o Jaime foi o mentor de tudo, quem espalhou esses conceitos entre nós”, e que o Vivapark aplicava cinquenta anos de trabalho dele num terreno novo, sem as amarras de uma cidade já construída. A Vokkan chama o bairro de um dos últimos projetos de Lerner: ele morreu em maio de 2021, com a primeira fase em obra; ela foi entregue em outubro de 2023.
Em abril de 2022 o Vivapark recebeu o LEED for Communities Platinum, o primeiro do mundo nesse nível na categoria de planejamento e desenho, com 87 de 110 pontos. O detalhe que a HAUS registrou: o projeto não foi feito para o selo; o selo veio depois, avaliando o que Lerner já tinha desenhado.
Parques nas várzeas para segurar a enchente. Área verde de 0,5 m² para 50 m² por habitante.
Dois parques com lagos no centro das fases 1 e 2, jardins de chuva e ruas desenhadas para o solo absorver água. 230 mil m² de verde para 30 mil moradores.
A Rua XV vira calçadão em 72 horas: a rua devolvida a quem anda.
Calçadas com piso tátil, travessias elevadas, ciclovia e faixa de plantio em toda rua; a rua do lazer ao lado dos restaurantes.
Onde passa o eixo de transporte, sobe prédio; onde não passa, é parque.
Prédios de altura controlada na avenida central; casas nas quadras de dentro; parque entre eles. Nada se constrói sem passar pelo desenho.
Morar, trabalhar e viver no mesmo casco.
Escola, universidade, UPA, mercado, restaurantes, academia, arena e escritórios (Veccel) a 15 minutos a pé de qualquer casa.




“Vivapark é um chamado para viver este espaço, viver bem, onde a sustentabilidade e o encontro entre as pessoas acontecem de maneira bem-feita.”
Jaime Lerner sobre o Vivapark, no case oficial da Vokkan para o Prêmio Master Imobiliário 2025.Um bairro desenhado por quem passou 50 anos estudando o que faz uma cidade funcionar não é argumento de folder: é o motivo de o parque ficar no meio, de a escola ficar a pé, de a rua não ter poste, de o prédio não passar de certa altura. É o que o Prêmio Master reconheceu em 2025 e o que o LEED Platinum mediu em 2022. E é o que dá para verificar andando: 42 casas, 24 terrenos e 12 prédios com unidades à venda estão todos dentro desse desenho. O guia do bairro mostra fase por fase.
Arquiteto e urbanista de Curitiba (1937–2021), três vezes prefeito da cidade (1971–74, 1979–83 e 1989–92) e duas vezes governador do Paraná (1995–2002). Criou o modelo de ônibus expresso em canaleta (BRT) copiado por mais de 200 cidades, transformou a Rua XV no primeiro calçadão do Brasil em 72 horas e fez de Curitiba a capital dos parques. Foi presidente da União Internacional de Arquitetos (2002–2005), apontado pela Time em 2010 como um dos pensadores mais influentes do mundo e pela Planetizen, em 2018, como o segundo urbanista mais influente de todos os tempos.
O masterplan do Vivapark Porto Belo é do escritório dele, Jaime Lerner Arquitetos Associados. O bairro foi desenhado como um bairro-parque, com o parque no centro e tudo a 15 minutos a pé, a ideia da "cidade tartaruga" que ele defendeu a vida inteira. As obras começaram em 2020 e ele morreu em maio de 2021: o Vivapark foi um dos últimos projetos que ele assinou.
A metáfora que ele usava para explicar como uma cidade deve funcionar. No casco da tartaruga estão, juntos, o lugar de morar, o de trabalhar e o de viver. Se você corta o casco em três, a tartaruga morre. Uma cidade que separa moradia, trabalho e lazer em zonas distantes obriga todo mundo a viver no carro. O Vivapark aplica isso: escola, mercado, parque, academia e trabalho a pé.
Porque em Curitiba os parques foram a solução para um problema de engenharia. Em vez de gastar em diques contra as enchentes dos rios, a prefeitura comprou as várzeas e fez parques com lagos que seguram a água da chuva. O Barigui (1972), com 1,4 milhão de m², é o exemplo. A área verde por habitante foi de 0,5 m² em 1970 para mais de 50 m². No Vivapark, os parques Viva Energia e Viva Equilíbrio fazem o mesmo papel: os lagos e os jardins de chuva recebem a água num terreno plano com lençol freático raso.
O nome do livro mais conhecido de Lerner (2003). A ideia: uma cidade não precisa de um plano gigante para melhorar; precisa de intervenções pequenas, rápidas e certeiras nos pontos certos, como agulhas de acupuntura. O calçadão feito em 72 horas é o exemplo clássico. Ele dizia que qualquer cidade pode mudar para melhor em menos de três anos.
O masterplan é do escritório dele e o projeto foi desenvolvido pela equipe da Jaime Lerner Arquitetos Associados junto com a Vokkan. Ele morreu em maio de 2021, com a primeira fase ainda em obras (entregue em outubro de 2023). Não há registro público de visita dele ao bairro pronto; a frase dele sobre o Vivapark que a Vokkan usa no case é "um chamado para viver este espaço, viver bem".
Fontes: Wikipédia (biografia, mandatos, prêmios); TOPVIEW, 27/05/2021 (obras e datas); Vivadecora (obras, Planetizen 2018); Cimento Itambé, 08/06/2021 (frases, 200+ cidades com BRT); Green Savers (área verde 0,5 → 55 m², 2,3 milhões de passageiros/dia, Lixo que não é Lixo 70%); UAI, 15/03/2026 (parques hoje, “onde passava ônibus…”); Caos Planejado, 26/01/2024 (a tartaruga, em O Vizinho); TED 2007; HAUS, 07/04/2022 (masterplan JLAA, LEED, Debora Ciociola); Vokkan, 11/07/2022 (“um dos últimos projetos”); case oficial da Vokkan para o Prêmio Master 2025 (frase de Lerner sobre o Vivapark). Fotos de Curitiba: Wikimedia Commons, licenças Creative Commons, crédito em cada legenda. Fotos do Vivapark: Portal do Vivapark (set/2026) e case da Vokkan.
Pricila Santos, CRECI 43328-F SC. A resposta vem com número, não com formulário.